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Crônica do Zambelli: 'O caso das três portas'

- Thiago Zambelli - Amigo da Escola

Diferentemente da maioria das pessoas de onde eu moro hoje, Paulo Afonso-BA, eu falo porta com a letra r bastante arrastada: poRta. Alguns se confundem e acham que todos que nascem no estado de São Paulo falam assim. Isso é um privilégio dos caipiras¹! Os paulistanos falam POrTA, com um r alveolar².  Quando meu filho estava em fase de alfabetização, nossa família morava na Paraíba e ele dizia porhta, com o r gutural³. 

Minha família e eu apreciamos a pluralidade linguística e cultural. Eu estudo, direta e indiretamente, línguas e culturas antigas como a egípcia, a hebraica, a grega e a romana (latim) e tenho uma esposa que, além de formada em letras, é muito hábil no aprendizado de novas línguas. Nosso filho primogênito fala fluentemente em inglês e ainda tem gostos e costumes do tempo em que vivemos fora do Brasil.

Apesar de toda essa experiência e apreciação, nós possuímos uma história com a qual nos identificamos mais e melhor. A interação e a afeição pelas pessoas e pelos lugares onde nós já estivemos influenciaram na formação da nossa identidade, algo que todos constroem conscientemente ou não. Ninguém nasce com uma identidade cultural; cada um de nós adota uma. Não obstante, nenhuma identidade é construída solitariamente, sem um contexto comunitário. 

Assim, quando prezamos pelo valor intrinsecamente social da nossa história e, portanto, da nossa identidade, somos impelidos a edificar uma sociedade cujas portas, sejam elas poRtas, POrTAS ou porhtas, refletem a funcionalidade, a beleza e a necessidade da diversidade cultural. Você consegue imaginar a magnífica arquitetura dessa sociedade?

Quanto mais estimamos a nossa história, maior será a nossa gratidão a Deus e o nosso desejo de aplicá-la no presente e no futuro. Compreenderemos melhor o nosso papel na comunidade em que vivemos e reorientaremos a nossa mente para valorizar quem nós somos acima do que nós temos.

A Escritura Sagrada diz que, um dia, estarão juntos e presentes “gente de toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5.9). Eu desejo avidamente por este dia. No entanto, enquanto ele não chega, buscarei valorizar a minha história e gentil e respeitosamente transmiti-la por meio dos meus costumes, das minhas palavras, enfim, da minha vida. Eu lhe convido a fazer o mesmo. Você topa? 

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¹ Caipira aqui não tem qualquer conotação pejorativa. Lembre-se que o termo foi utilizado especialmente para designar as antigas populações da capitania de São Vicente, posteriormente chamada de capitania de São Paulo. Hoje, o termo é mais frequentemente utilizado para se referir à população do interior de Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul.
² Neste caso, o r é articulado no encontro da ponta da língua com os alvéolos dentários.
³ Que tem origem na garganta.

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